SEGUIDORES

Pesquisar Neste Blog

IMPOSTÔMETRO

Mostrando postagens com marcador VEGANISMO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador VEGANISMO. Mostrar todas as postagens

sábado, 31 de agosto de 2024

Dieta vegana deixa a pessoa desprovida de inteligência

A dieta vegana é baixa em — ou, em alguns casos, totalmente desprovida de — vários nutrientes cerebrais importantes. Essas deficiências poderiam estar afetando a capacidade de pensar dos veganos? 


Era o final da década de 1880 na cidade de Rajkot, na Índia. A reunião aconteceria às margens do rio local — e a discrição era essencial. Mahatma Gandhi, que era apenas um adolescente na época, não havia dito aos pais para onde estava indo; se eles descobrissem, teriam ficado chocados até a morte.

Acontece que Gandhi estava fazendo um piquenique. E nessa ocasião, o futuro herói nacional da Índia — e um dos vegetarianos mais famosos da história — não planejava comer sanduíches de pepino. Não, pela primeira vez em sua vida, ele ia comer carne

Como ele escreveu mais tarde em sua biografia, Gandhi foi criado como um rigoroso hindu vaishnava, e nunca havia visto carne antes desse dia fatídico. Mas seu companheiro de piquenique era um personagem sombrio, com uma obsessão incomum — a ideia de que a carne era a chave para ser física e mentalmente forte.

No final, Gandhi enfrentou a carne. Era tão dura quanto couro. 

A ideia de que evitar a carne é ruim para o cérebro faz algum sentido intuitivo; os antropólogos discutem sobre o que nossos ancestrais comeram há décadas, mas muitos cientistas pensam que havia muito esmagamento de ossos e mudanças no cérebro no caminho para desenvolver esses notáveis ​​órgãos de 1,4 kg. Alguns chegaram ao ponto de dizer que a carne nos tornou humanos.

Uma razão é que a inteligência é cara — o cérebro devora cerca de 20% de nossas calorias diárias, embora represente apenas 2% do peso corporal — e que melhor maneira de encontrar a enorme variedade de gorduras, aminoácidos, vitaminas e minerais que esses órgãos exigentes exigem, do que banqueteando-se com animais que já os coletaram ou criaram meticulosamente.


Mahatma Gandhi, líder pioneiro da independência da Índia, até brincou com carne apesar de suas crenças vegetarianas

Mas, embora seja difícil imaginar nossos ancestrais escolhendo nabos em vez de atum, hoje é uma história diferente. Segundo as últimas estatísticas, existem cerca de 375 milhões de vegetarianos no planeta. No Ocidente, o veganismo abandonou o estigma hippie para se tornar uma das tendências milenares de crescimento mais rápido; nos Estados Unidos, cresceu 600% entre 2014 e 2017. Enquanto isso, na Índia, as dietas sem carne são predominantes desde o século VI AC.

Por um lado, a preocupação recente com as lacunas nutricionais das dietas vegetais levou a várias manchetes alarmantes, incluindo um aviso de que elas podem atrofiar o desenvolvimento do cérebro e causar danos irreversíveis ao sistema nervoso de uma pessoa. Em 2016, a Sociedade Alemã de Nutrição chegou ao ponto de categorizar que — para crianças, mulheres grávidas ou amamentando e adolescentes — não são recomendadas dietas veganas, que foram apoiadas por uma revisão de 2018 da pesquisa. Na Bélgica, forçar uma dieta vegana na sua prole pode lhe levar para a prisão.

Por outro lado, se a abstenção de carne tivesse algum impacto real em nossos cérebros, você pensaria que já teríamos notado. Então, isso está realmente prejudicando nossos intelectos, ou isso tudo é apenas medo do desconhecido?

Idealmente, para testar o impacto da dieta vegana no cérebro, você deveria pegar um grupo de pessoas selecionado aleatoriamente, pedir metade para parar de comer produtos de origem animal — e depois ver o que acontece. Mas não há um único estudo como este.

Em vez disso, a única pesquisa que chega perto envolve o inverso. Foi realizado em 555 crianças quenianas, que foram alimentadas com um dos três tipos diferentes de sopa — uma com carne, uma com leite e outra com óleo — ou sem sopa — ou sem sopa, como um lanche em sete períodos escolares. Elas foram testadas antes e depois, para ver como sua inteligência se comparava. Por causa de suas circunstâncias econômicas, a maioria das crianças era de fato vegetariana no início do estudo.

Surpreendentemente, as crianças que receberam a sopa contendo carne todos os dias pareciam ter uma vantagem significativa. Ao final do estudo, elas superaram todas as outras crianças em um teste de raciocínio não verbal. Juntamente com as crianças que receberam sopa com óleo adicionado, elas também se saíram melhor em um teste de capacidade aritmética. Obviamente, são necessárias mais pesquisas para verificar se esse efeito é real e se também se aplicaria a adultos nos países desenvolvidos. Mas levanta questões intrigantes sobre se o veganismo pode estar impedindo algumas pessoas.

De fato, existem vários nutrientes cerebrais importantes que simplesmente não existem em plantas ou fungos. Creatina, carnosina, taurina, ômega-3, ferro e vitaminas B12 e D3 geralmente ocorrem apenas naturalmente em alimentos derivados de produtos de origem animal, embora possam ser sintetizados em laboratório ou extraídos de fontes não animais, como algas, bactérias ou líquenes e adicionados aos suplementos. 

Outros são encontrados em alimentos veganos, mas apenas em quantidades escassas; para obter a quantidade mínima de vitamina B6 necessária todos os dias (1,3 mg) de uma das fontes vegetais mais ricas, a batata, é necessário comer cerca de cinco xícaras (equivalente a aproximadamente 750g ou 1,6lb). Delicioso, mas não particularmente prático. 


Para obter sua necessidade diária de vitamina b6, você precisaria comer cerca de 750g de batata

E embora o corpo possa produzir alguns desses compostos cerebrais vitais a partir de outros ingredientes em nossas dietas, essa capacidade geralmente não é suficiente para compensar essas deficiências na dieta. Para todos os nutrientes listados acima, os vegetarianos e veganos demonstraram ter quantidades menores em seus corpos. Em alguns casos, a deficiência não é a exceção — é completamente normal.

Por enquanto, o impacto que essas deficiências estão causando na vida dos veganos é em grande parte um mistério. Mas uma série de estudos recentes forneceu algumas pistas — e elas contribuem para uma leitura perturbadora.

"Acho que há algumas repercussões reais no fato de que as dietas à base de plantas estão decolando", diz Taylor Wallace, cientista de alimentos e CEO da empresa de consultoria em nutrição Think Healthy Group. "Não é que a base de plantas seja inerentemente ruim, mas acho que não estamos educando as pessoas o suficiente, sabe, sobre os nutrientes que são principalmente derivados de produtos de origem animal".  

Um dos desafios mais conhecidos para os veganos é obter vitamina B12 suficiente, encontrada apenas em produtos de origem animal, como ovos e carne. Outras espécies o adquirem de bactérias que vivem em suas vias digestivas ou fezes; elas a absorvem diretamente ou a ingerem fazendo um lanche do próprio cocô, mas infelizmente (ou felizmente, dependendo de como você enxerga) os humanos não podem.

Para ver o quão crucial é a vitamina B12 para o cérebro, veja o que acontece quando não conseguimos o suficiente. Nas crianças, as consequências da deficiência de vitamina B12 podem alterar a vida. "Existem alguns casos trágicos de crianças cujos cérebros não se desenvolveram por causa de seus pais serem veganos mal informados", diz Benton. Em um exemplo, a criança não conseguiu sentar ou sorrir. Em outro, ela entrou em coma.

Mais tarde na vida, a quantidade de B12 no sangue de uma pessoa é diretamente correlacionada com o seu QI. Em idosos, um estudo constatou que os cérebros daqueles com menor nível de vitamina B12 eram seis vezes mais propensos a encolher.  

Mesmo assim, o baixo índice de vitamina B12 é generalizado nos veganos. Um estudo britânico descobriu que metade dos veganos da amostra eram deficientes. Em algumas partes da Índia, o problema é endêmico — possivelmente como consequência da popularidade das dietas sem carne.

Outro nutriente que é escasso na dieta vegana típica é o ferro. Embora o associemos frequentemente ao sangue, o ferro também desempenha papel importante no desenvolvimento do cérebro e é essencial para manter o órgão saudável durante toda a vida. Por exemplo, um estudo de 2007 constatou que dar às mulheres jovens suplementos de ferro levou a ganhos intelectuais significativos

Naquelas cujos níveis de ferro no sangue aumentaram ao longo do estudo, seu desempenho em um teste cognitivo melhorou entre cinco e sete vezes, enquanto os participantes cujos níveis de hemoglobina subiram experimentaram ganhos em sua velocidade de processamento.

É importante que os veganos tomem suplementos para substituir os elementos essenciais encontrados em produtos de origem animal, dizem os especialistas

É surpreendentemente fácil cair na deficiência de ferro, mesmo que ele represente 80% da massa interna do planeta em que vivemos. Pensa-se que até dois bilhões de pessoas tenham uma falta do elemento em todo o mundo, tornando-o a inadequação nutricional mais comum. Os veganos são particularmente propensos, porque a forma que é mais facilmente absorvida pelo corpo é o "ferro-heme", que só é encontrado nas proteínas animais. Um estudo alemão descobriu que 40% dos veganos consumiam menos do que a quantidade diária recomendada.

Outras deficiências comuns entre os veganos incluem D3, ômega-3, selênio, folato e iodo. Embora o corpo possa produzir D3 quando a pele é exposta ao sol, isso não compensa o extra que os veganos estão perdendo em suas dietas. Nos meses de inverno, quando o sol está mais fraco, os onívoros que vivem no Reino Unido têm quase 40% mais vitamina D3 no sangue do que os veganos.

Claro, algumas dessas coisas podem ser facilmente adquiridas a partir de suplementos. Mas outros são tão obscuros que é improvável que os veganos sequer tenham ouvido falar deles — muito menos percebem que podem estar perdendo.

Um exemplo é a taurina. Esse aminoácido enigmático é um dos mais abundantes no cérebro humano, onde acredita-se que sustenta vários processos importantes, como a regulação do número de neurônios. É frequentemente adicionado a bebidas energéticas com cafeína, devido à crença (possivelmente equivocada) de que pode fornecer um impulso cognitivo imediato.

Embora existam pequenas quantidades de taurina em alguns produtos lácteos, as principais fontes alimentares são carnes e frutos do mar. "Algumas espécies têm a capacidade de produzir toda a taurina de que precisam", diz Jang-Yen Wu, cientista biomédico da Florida Atlantic University. "Mas os humanos têm uma capacidade muito limitada de fazer isso." 

Por esse motivo, os veganos tendem a ter menos taurina em seus corpos. Ninguém investigou como isso pode estar afetando suas habilidades cognitivas ainda, mas com base no que sabemos sobre seu papel no cérebro, Wu diz que os veganos devem tomar comprimidos de taurina. "As pessoas podem se tornar deficientes quando restringem suas dietas, porque os vegetais não têm conteúdo de taurina", diz ele.

De fato, os buracos em nosso entendimento atual sobre o que o cérebro precisa para ser saudável podem ser um grande problema para os veganos, já que é difícil adicionar artificialmente um nutriente à sua dieta, se os cientistas ainda não descobriram seu valor.
 


É difícil adicionar artificialmente um nutriente à sua dieta, se os cientistas ainda não descobriram o seu valor

"Existem tantas incógnitas", diz Nathan Cofnas, biólogo da Universidade de Oxford. "E quando você se desvia da dieta típica de sua espécie, para uma que não foi testada e adequadamente estabelecida para ser saudável ou boa para o cérebro, você está conduzindo um experimento e assumindo um risco".

Pegue a colina: no cérebro, é usada para produzir acetilcolina, envolvida em várias tarefas, incluindo a transmissão de mensagens entre células nervosas. É fundamental a nossa capacidade de pensar — até os insetos têm isso em seus cérebros minúsculos — e o corpo não consegue produzir o suficiente por conta própria.

E ainda: "É um nutriente muito pouco estudado", diz Wallace. "Acredito que só consideramos essencial [algo que você precisa obter com sua dieta] desde o final dos anos 90".

Existem pequenas quantidades de colina em muitos alimentos veganos, mas entre as fontes mais ricas estão ovos, carne e frutos do mar. De fato, mesmo com uma dieta normal, 90% dos americanos não consomem o suficiente. De acordo com uma pesquisa não publicada de Wallace, os vegetarianos têm a menor ingestão de todos os dados demográficos. "Eles têm níveis extremamente baixos de colina, a tal ponto que possa ser preocupante", diz ele.

Para os veganos, é provável que o quadro ainda seja mais sombrio, já que as pessoas que comem ovos tendem a ter quase o dobro dos níveis de colina daqueles que não comem. E, embora as autoridades americanas tenham proposto sugestões, elas podem estar muito longe.

Wallace aponta para um estudo de 2018, que descobriu que os bebês de mulheres que consumiam o dobro da quantidade considerada "adequada" — cerca de 930 mg por dia — no último terço da gravidez desfrutavam de uma vantagem cognitiva duradoura. Para comparação, o vegetariano médio recebe aproximadamente um quinto dessa quantia.  


Os veganos podem obter a proteína de que precisam a partir de alternativas como a soja, mas isso não lhes dará elementos essenciais, como colina e creatina  

Em outros casos, nosso entendimento é ainda mais sombrio.

O mais recente nutriente em questão é a creatina — uma substância branca e pulverulenta frequentemente encontrada em shakes de fitness. Sua função natural no corpo é fornecer energia às células, por isso é reverenciado pelos obsessivos do ginásio como uma maneira de melhorar sua resistência.

Mas também é importante para o cérebro — e estudos demonstraram que aumentar sua ingestão pode fornecer uma série de benefícios, como uma melhor memória de reconhecimento e menor fadiga mental. Recentemente, começou a ganhar força como uma droga inteligente.

Está bem estabelecido que veganos e vegetarianos têm níveis significativamente mais baixos em seus corpos, porque plantas e fungos não contêm nenhum.

Isso levou os cientistas a pensar se um déficit de creatina poderia estar impedindo algumas pessoas. Para um estudo, os pesquisadores testaram como a inteligência de vegetarianos e onívoros mudou após cinco dias com suplementos. "Descobrimos que os vegetarianos pareciam se beneficiar particularmente", diz David Benton, da Swansea University, que liderou a pesquisa.

Em contraste, os onívoros não foram afetados. Isso sugere que, ao contrário dos vegetarianos, eles já tinham a quantidade adequada de creatina no cérebro.

No entanto, Caroline Rae, que liderou outro estudo, diz que ainda não há evidências suficientes para voltar a tomar a creatina. Pode ter consequências não intencionais, como reduzir a capacidade do cérebro de produzir a sua própria — levando à "retirada de creatina". "Sempre tive a hipótese de que poderia ser útil se você quisesse fazer um exame, mas seria interessante ver se as pessoas ficam mais lentas depois que param."

Finalmente, o cérebro produz seu próprio suprimento, então não está claro se os veganos realmente precisam de algum suplemento. Em vez de ser uma fonte importante, a creatina em nossas dietas só pode ser usada pelo cérebro em condições "extremas", como quando estamos estressados.

Creatina, carnosina, taurina, ômega-3, ferro heme e vitaminas B12 e D3 ocorrem apenas naturalmente em alimentos feitos a partir de produtos de origem animal

No entanto, o Cofnas considera perturbadores os potenciais déficits de creatina nos veganos. "Pode fazer uma diferença substancial em sua vida, se sua inteligência é um desvio padrão acima da média ou duas vezes maior", diz ele, referindo-se aos ganhos intelectuais pequenos, porém significativos, feitos pelos vegetarianos em suplementos de creatina.

Então, qual é o veredicto?

"Acho que precisamos de muito mais pesquisas sobre nutrição e saúde veganas", diz Heather Russell, nutricionista da The Vegan Society. "Até onde sabemos, é possível levar uma vida saudável como vegano — certamente existem pessoas que prosperam com uma dieta vegana." Embora seja importante tomar suplementos, ela explica que a saúde cardiovascular e cerebral de uma pessoa está indissoluvelmente ligada, e os veganos tendem a ter corações saudáveis.

"Eu digo às pessoas o tempo todo, se você é vegano ou vegetariano, tudo bem", diz Wallace. "Certamente não estou advogando contra isso. Mas existem 40 ou alguns nutrientes essenciais. Então, quero dizer, seria preciso muita pesquisa para os veganos conseguirem tudo o que o cérebro precisa", diz ele. Alguns nutrientes com os quais uma dieta vegana típica é baixa ou inexistente, como colina, creatina, carnosina e taurina, são extremamente volumosos; portanto, basta tomar um comprimido vitamínico padrão não será suficiente. Em vez disso, eles precisam ser tomados individualmente.

Benton concorda. "Tenho certeza de que, se você é conhecedor, cuidadoso e obsessivo — e você tem todas as características de personalidade certas para ser assim —, é possível ter uma dieta saudável vegana", diz ele. "Mas é claramente possível que você possa ter deficiências."

Cofnas tem uma visão mais severa. Embora os veganos possam tomar suplementos, ele acha irrealista esperar que todos tomem. Consequentemente, ele acha preocupante a recente mudança para dietas à base de plantas, embora seja solidário com os argumentos para fazê-lo. "Sem dúvida, o veganismo pode causar deficiências de B12 e ferro, e sem dúvida elas afetam sua inteligência", diz ele.

Quanto a Gandhi, ele finalmente abandonou seu relacionamento ilícito com a carne e voltou ao vegetarianismo. Mas seus experimentos com nutrição não terminaram aí. Ele também abandonou o sal, depois voltou a ele e tentou o veganismo — embora depois de um período de disenteria praticamente o reduzisse a um esqueleto vivo, ele decidiu que eram necessários produtos lácteos para que uma pessoa fosse saudável.

Seja qual for a verdade, não é hora de descobrirmos?


Fonte: https://bbc.in/2O8v7cC

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Nosso Sistema Digestivo Não Digere Vegetais

 

Este é um relatório feito por António  para o seu médico pessoal, depois de consultar 5 gastroenterologistas que não resolveram o seu problema dos gases no aparelho digestivo (intestino delgado e estômago) e que todas as prescrições que fizeram não resolveram ou até agravaram o problema.

Só consegui controlar o problema dos gases no sistema digestivo raciocinando num quadro de compreensão do processo digestivo muito diferente do comumente aceite. Para tal contribuiu decisivamente a leitura do livro do gastroenterologista Walter Voegtlin,“Stone age diet based on in-depth studies of human ecology and the diet of man”, que pode ser obtido on-line (ver ref [1] abaixo), para além de muitas dezenas de artigos de investigação que têm sido publicados em revistas biomédicas de referência. De um modo muito resumido, o meu quadro de trabalho é o seguinte:


Com a digestão obtemos aminoácidos para fazer novas proteínas, açúcares (glucose, frutose, lac- tose, etc) e ácidos gordos livres para gerarmos energia (via ATP), e ainda minerais, vitaminas, etc. para gerarmos membranas celulares, enzimas, etc. [2].

Para termos tudo isto na forma biodisponível temos de romper as membranas celulares dos ali- mentos que ingerimos na forma bruta, e assim libertar os conteúdos celulares para nosso uso.

A mastigação divide os alimentos brutos, os ácidos estomacais dissolvem as membranas celulares, libertando o conteúdo das células (proteínas, gorduras, açúcares, etc), as proteases (enzimas) estomacais decompõem as proteínas em aminoácidos que são absorvidos no intestino delgado. As gorduras são emulsionadas (finamente divididas em gotículas) e em seguida em ácidos gordos livres, principalmente através dos ácidos biliares, sendo depois absorvidos no intestino delgado. Os carbohidratos, nomeadamente o amido, são decomposto em açúcares elementares pela acção da enzima amilase (que está na saliva) e pelos ácidos estomacais, e depois absorvidos no intestino delgado. 

A fibra (células de parede celulósica) não são rompidas pois não temos enzimas para tal e passam ao intestino delgado sem absorção, sendo depois “despejadas” no intestino grosso sem alteração [1, 2]. Aí são as bactérias que tomam conta do assunto, rompem as mem- branas celulósicas fermentam o conteúdo das células vegetais e geram gases [1].

Para digerir a proteína temos muitas enzimas no estômago (pepsina, tripsina, etc). Para digerir o amido só temos a amilase na saliva libertada na mastigação. O mesmo se passa com a generali- dade dos carbohidratos. Por isso, quem come muito pão depressa fica “empanzinado”, pois no estômago, a não ser a amilase da saliva, já não há outras enzimas para continuar a digestão. Uma parte do amido que foi desdobrada em açúcares é absorvida no intestino delgado (se for pão de farinha refinada é imediatamente absorvida, e é quase como uma injecção de glucose, com os subsequentes picos de insulina, e consequentemente o risco de diabetes [2], cancro [9] etc.), e a outra parte passa pelo intestino delgado e intestino grosso onde é decomposta pelas bactérias gerando gás (CO2, hidrogénio e metano, inodoros que em parte retornam ao estômago!). A proteína é praticamente toda decomposta em aminoácidos que são facilmente absorvidos no intestino delgado, não gerando gases. A gordura se a vesícula estiver funcional - é praticamente toda desdobrada em ácidos gordos que são absorvidos no intestino delgado, não gerando gás [1], [2].

Neste quadro se comermos só proteína e gordura temos uma digestão rápida. Se juntarmos carbohidratos, estes envolvem as proteinas, tornam mais difícil o ataque pelos ácidos estomacais, e tornam difícil o acesso das enzimas às proteínas, e a digestão é mais lenta, uma parte da proteína passa não digerida pelo intestino delgado e vai para o cólon. Aí, as bactérias decompõem a proteína e libertam gás sulfuroso (mal-cheiroso). A situação piora se juntamente com a proteína animal ingerirmos proteina vegetal (como por exemplo na feijoada). Como a semente de feijão se destina a produzir uma nova planta, está protejida por inibidores das proteases (pepsinas, tripsi- nas, etc) dos ataques dos micróbios que lhes tentam comer a proteina. Estes inibidores das proteases também inibem as enzimas que decompõem a proteína animal [3]. Assim temos um grande banquete para as bactérias no cólon com abundante geração de gás sulfuroso. A situação passa-se da mesma forma com todas as leguminosas.

Fazendo aqui o ponto da situação: Todo o material vegetal é difícil de digerir, devido à dificuldade de rompimento das membranas celulósicas das células vegetais, o rendimento da digestão é muito baixo, por isso os vegetarianos e veganos têm de comer grandes quantidades de matéria vegetal, tal como os herbívoros (ovelhas, vacas, cavalos, etc). Para além disso, têm de ter uma grande diversidade de bactérias no cólon para processar todo o material não digerido. Na digestão bacteriana dos carbohidratos, açúcares e membranas celulósicas geram-se produtos agressivos para o cólon. As intolerâncias ao glúten, às ceramidas, às saponinas, às lectinas (comuns nos feijões, amendoins e outros legumes), à lactose, etc., estão na ordem do dia, assim como o intestino irritável - melhor dito: irritado, que alguns gastroenterologistas vêm tratando com uma dieta alta em proteina! -, a doença de Crohn, os cancros digestivos (os veganos têm um risco acrescido para cancro no colon [4]), são doenças da “civilização” quase desconhecidas por exemplo entre os Masai (que têm uma dieta à base de carne) e os Inuits e Esquimós que comem respectivamente carne e gordura de foca e de rena. O estudo EPUIC-Oxford revelou que os veganos têm maior incidência de cancro do cólon que as pessoas que seguem uma dieta normal (ver ref.[4)). Pelo contrário, não se verifica aumento de mortalidade por todas as causas nas pessoas que têm uma dieta alta em gordura (excepto gorduras trans (margarinas) [ver refs. [5], [6] e [7]), tal como entre as que têm uma dieta com base na carne [7, 8].

Do ponto de vista evolutivo, a espécie humana (caçadores/recolectores) andou centenas de milhares de anos a comer carne e gordura animal (terrestre e aquática) e na sua falta comia esporádicamente raízes e frutos. A nossa bioquímica foi formatada nesse longo período. 

Quando o número de animais se tornou escasso para alimentar os crescentemente numerosos humanos, estes recorreram cada vez mais às raízes, e à domesticação de alguns animais. Com a descoberta dos cereais começou a agricultura e o nascimento de cidades. Finalmente, era possível alimentar muita gente com as reservas de cereais durante todo o ano, não sendo necessário andar de um lado para o outro a caçar animais, que eram cada vez em menor número. A dieta passou a ser baseada nos carbohidratos, os indivíduos ficaram mais baixos, gordos e atarracados (como mostra a arqueologia) e começaram a ter as chamadas “doenças da civilização”, que representam a dificuldade da nossa bioquímica e fisiologia em se adaptarem a uma transição rapidíssima em termos da história evolutiva (10.000 anos) entre a milenar dieta proteica e a recente dieta com base nos carbohidratos. De fato, análises às múmias do antigo Egipto (dieta à base de trigo, cevada e centeio) revelaram elevadíssima presença de aterosclerose. Estudos atuais mostram que a dieta de carbohidratos está associada às doenças cardiovasculares e ao cancro [8] enquanto a dieta à base de gordura saturada ou insaturada está associada a uma menor mortalidade por todas as causas e, concretamente, a gordura saturada está associada à redução dos AVCs [7] (ver também [6],[9],[10]). Adicionalmente, os picos de insulina gerados pelo grande consumo de carbohidratos são há muito ligados ao risco de cancro, e explicam o facto de a metformina - um medicamento para reduzir a glicemia - reduzir também o risco de cancro [10].

Coloca-se a questão de uma dieta com alto teor de proteinas e gordura poder ser prejudicial para os humanos. De fato, há muitos estudos a mostrarem que uma dieta deste tipo reduz os principais marcadores da inflamação, é usada por alguns médicos para tratar doenças do aparelho digestivo (IBS, Crohn, etc), epilepsia, entre outras. Pelo contrário, a “diet heart” (dieta do coração) é considerada ter criado na América uma “nação de obesos e diabéticos”. A controvérsia actual ainda está muito activa, com a maioria dos atores, nomeadamente nutricionistas e profissionais da saúde, ainda muito apegados ao paradigma da dieta de baixa gordura, baixa proteina e alto teor de vegetais, carbohidratos e fibra. No entanto, será impossível ignorar por muito tempo o acumular de evidências, de tal modo que a reapreciação da “dieta do coração” terá de ser feita mais tarde ou mais cedo. Algumas questões foram colocadas relativamente às dietas proteicas: (i) O efeito que poderão ter na função renal: Uma recente análise de quase todos os estudos feitos sobre esta matéria (meta-análise) concluiu que, em pessoas saudáveis, a dieta proteica não tem influência adversa na função renal (ver ref. [11]); (ii) O efeito que poderá ter nos níveis de colesterol: Um estudo recente (2021) baseado no estudo de referência (National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) 1999-2014, com dados de 19.034 pessoas) concluiu que o intervalo do nível de colesterol LDL - apenas uma fracção (a maior) do colesterol total - com menor mortalidade por todas as causas se situa entre 130 e 180 mg/d [12]. Embora a dieta proteica eleve ligeiramente os níveis de LDL, de acordo com o estudo, desde que não ultrapasse 180mg/dl, não aumenta o risco de mortalidade. Por outro lado, muitos estudos evidenciam a associação entre os níveis de LDL e a longevidade (ver refs. [13] e [14]).

Neste contexo segui durante algumas semanas uma dieta proteica com gordura (manteiga por ex.), sem carbohidratos, acompanhado de salada verde. A redução do gás no trato digestivo, nomeadamente no estômago foi enorme. Ao não lhes proporcionar carbohidratos e FODMAPs, reduzi a quantidade de bactérias comensais e produtoras de gás, que a partir do intestino grosso colonizam o intestino delgado (SIBO - Small Intestinal Bacterial Overgrowth). Tenho agora algum gás residual que creio ser devido ao fato de estar a reintroduzir alguns carbohidratos (batatas, arroz). Não penso reintroduzir tão cedo na dieta: pão, massas, legumes, frutas FODMAP etc. Não senti reduções na energia diária, e tenho uma sensação de bem-estar e saciedade com reduzida ingestão de proteina, que é um alimento denso em nutrientes. Como diz o gasteroenterologista Voegtlin [1] o nosso aparelho digestivo é idêntico ao do cão (excepto no que este não tem apêndice). O cão - que não estudou na universidade - come proteína e masca erva, sabedoria canina antiga, pois a erva dá-lhe o grupo metilo que impede que a metabolização da proteina se transforme em tiolactona que agride os vasos sanguíneos [2]. Aprendendo com o cão estou a comer proteína com salada verde, verduras cozidas, e citrinos (limão). Por outro lado, a ovelha que só come vegetais, tem quatro bolsas estomacais, onde as bactérias fazem o seu trabalho durante 2 dias para tirar alguns (poucos) nutrientes úteis, e como o rendimento é muito baixo passa o dia a comer e a noite a regurgitar e a ruminar para voltar a engolir. Estou mais perto do cão do que da ovelha!



REFERÊNCIAS

  1. Voegtlin, Walter L., Stone age diet based on in-depth studies of human ecology and the diet of man. New York : Vantage Press, 1975.
  2. Newsholme E, Leech A. Functional biochemistry in health and disease. Wiley Blackwell Publishing, Hoboken, NJ,2010.
  3. Gilani et al.: Effects of Antinutritional Factors on Protein Digestibility and Amino Acid Availability in Foods, Jlounal of AOAC International Vol. 88, No. 3, 2005.
  4. Key TJ, Appleby PN, Spencer EA, Travis RC, Roddam AW, Allen NE. Cancer incidence in vegetarians: results from the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC-Oxford), Am. Journal Clin Nutr. 2009 May;89(5):1620S-1626S.
  5. Minkyeong Kim and Kyong Park, Dietary Fat Intake and Risk of Colorectal Cancer: A Systematic Review and Me- ta-Analysis of Prospective Studies Nutrients 2018, 10, 1963;
  6. Russell J de Souza, Andrew Mente, Adriana Maroleanu, Adrian I Cozma,Vanessa Ha,Teruko Kishibe, Elizabeth Ule- ryk, Patrick Budylowski, Holger Schünemann,Joseph Beyene,Sonia S Anand. Intake of saturated and trans unsatura- ted fatty acids and risk ofall cause mortality, cardiovascular disease, and type 2 diabetes:systematic review and meta- analysis of observational studies, BMJ 2015;351:h3978.
  7. Jung Eun Lee, Dale F McLerran, Betsy Rolland, Yu Chen, Eric J Grant, Rajesh Vedanthan, Manami Inoue,
  8. Shoichiro Tsugane, Yu-Tang Gao, Ichiro Tsuji, Masako Kakizaki, Habibul Ahsan, Yoon-Ok Ahn, Wen-Harn Pan,Kotaro Ozasa, Keun-Young Yoo, Shizuka Sasazuki, Gong Yang, Takashi Watanabe, Yumi Sugawara, Faruque Parvez,Dong- Hyun Kim, Shao-Yuan Chuang, Waka Ohishi, Sue K Park, Ziding Feng, Mark Thornquist, Paolo Boffetta, Wei Zheng,Daehee Kang, John Potter, and Rashmi Sinha, Meat intake and cause-specific mortality: a pooled analysis of Asian prospective cohort studies, Am J Clin Nutr 2013; 98:1032–41.
  9. Klement and Kämmerer, Is there a role for carbohydrate restriction in the treatment and prevention of cancer? Nutrition & Metabolism 2011, 8:75. Mahshid Dehghan, Andrew Mente, Xiaohe Zhang, Sumathi Swaminathan, Wei Li, Viswanathan Mohan, Romaina Iq- bal, Rajesh Kumar,Edelweiss Wentzel-Viljoen, Annika Rosengren, Leela Itty Amma, Alvaro Avezum, Jephat Chifamba, Rafael Diaz, Rasha Khatib, Scott Lear,Patricio Lopez-Jaramillo, Xiaoyun Liu, Rajeev Gupta, Noushin Mohammadifard, Nan Gao, Aytekin Oguz, Anis Safura Ramli, Pamela Seron,Yi Sun, Andrzej Szuba, Lungiswa Tsolekile, Andreas Wiel- gosz, Rita Yusuf, Afzal Hussein Yusufali, Koon K Teo, Sumathy Rangarajan,Gilles Dagenais, Shrikant I Bangdiwala, Shofiqul Islam, Sonia S Anand, Salim Yusuf, on behalf of the Prospective Urban Rural Epidemiology(PURE) study in- vestigators, Associations of fats and carbohydrate intake with cardiovascular disease and mortality in 18 countries from five continents (PURE): a prospective cohort study 2017, The Lancet 390(10107)
  10. Alpana Ray, Mohamed AlalemBimal K RayInsulin signaling network in cancer, Indian J Biochem Bio- phys 2014 Dec;51(6):493-8.
  11. Michaela C Devries, Arjun Sithamparapillai, K Scott Brimble, Laura Banfield, Robert W Morton, and Stuart M Phillips, Changes in Kidney Function Do Not Differ between Healthy Adults Consuming Higher- Compared with Lo- wer- or Normal-Protein Diets: A Systematic Review and Meta-Analysis. The Journal of Nutrition, Volume 148, Issue 11, November 2018, Pages 1760–1775.
  12. Ya Liu, Fubin Liu, Liwen Zhang, Junxian Li, Wenjuan Kang, Mingli Cao, Fangfang Song & Fengju Song, Associa- tion between low density lipoprotein cholesterol and all-cause mortality: results from the NHANES 1999–2014, Natu- re Scientific Reports 11, 22111 (2021).
  13. Donnie Yance, What can Centenarians teach us about cholesterol levels and longevity, May 2021.
  14. Ravnskov U, de Lorgeril M, Diamond DM, Hama R, Hamazaki T, et al. The LDL paradox: Higher LDL-Choleste- rol is Associated with Greater Longevity. A Epidemiol Public Health. 2020; 3(1): 1040.

A história corrupta da pirâmide alimentar

TESTE SUA VELOCIDADE