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Como definir a auto-propriedade?

16:46:00
O principal malefício social da nossa época é a falta de respeito ao direito à auto-propriedade. É isso que está na base tanto de crimes pessoais como de crimes institucionais perpetrados pelo estado. Leis, regulamentações e ações estatais são condenáveis apenas porque o estado está alegando ter o direito de controlar como o corpo de uma pessoa deve ser usado.

Quando o estado recruta um homem para o serviço militar obrigatório ou o ameaça de prisão se ele violar suas leis anti-narcóticos, por exemplo, o estado está assumindo um controle parcial sobre o corpo dessa pessoa, infringindo seu direito à propriedade de si próprio.

Ademais, leis como leis tributárias e as multas pelo não cumprimento de decretos estatais arbitrários (por exemplo: regulamentações econômicas, leis anti-discriminação) também violam o direito à auto-propriedade porque assumem a posse de uma propriedade que pertence aos indivíduos.

Afinal, apesar de a propriedade de si mesmo ser mais fundamental do que direitos sobre recursos materiais — você antes precisa ser dono de si próprio para poder ser dono de outras coisas —, a auto-propriedade torna-se insignificante se o direito de possuir propriedade privada também não for respeitado. Foi por isso que Murray Rothbard insistiu que todos os "direitos humanos" são direitos de propriedade — direitos à propriedade de recursos escassos, seja o direito à propriedade do próprio corpo ou o direito à propriedade de objetos externos.

Porém, como mostra o exemplo acima, todas as teorias políticas defendem alguma forma de direitos de propriedade, já que elas especificam quais os proprietários de vários tipos de recursos. Políticas estatais que tributam, recrutam, aprisionam ou multam indivíduos que não obedecem a várias regulamentações na verdade estão atribuindo ao estado a propriedade parcial ao corpo ou às posses desses indivíduos. O estado alega ter o direito à propriedade parcial desses recursos.

Todos os sistemas políticos seguem alguma regra de adjudicação para determinar quais devem ser os proprietários de certos recursos. O que torna o libertarianismo uma filosofia à parte é a sua regra única de atribuição de propriedade: a regra que especifica que indivíduos, não o estado, são os donos de seu próprio corpo e de sua propriedade.

Primeiro Uso e Apropriação Original (Homesteading) de recursos sem dono

Assim, é crucial que a teoria libertária apresente fundamentos sólidos sobre direitos de propriedade e esclareça sua singular regra de atribuição de propriedade.

Fiando-se em alguma versão da noção lockeana de homesteading — um indivíduo se apropriando de algo sem dono, em seu estado natural, tornado-se assim o proprietário —, o libertarianismo corretamente se foca no conceito do primeiro uso de um recurso escasso e previamente sem dono como sendo o teste essencial para se determinar a propriedade deste.

A impressão inicial poderia ser a de que o primeiro uso é a base fundamental do credo libertário sobre a atribuição de propriedade, isto é, que ele decide as questões sobre a propriedade de todos os recursos escassos, tanto corpos humanos como coisas materiais. O proprietário de um pedaço de terra será aquele que for o primeiro usuário dela (ou o seu herdeiro intitulado), assim como o primeiro usuário de um corpo é o seu dono. Isso significaria que a propriedade sobre si mesmo se baseia no princípio do primeiro uso.

Os pais como Primeiros Donos

Mas o que há de errado em se basear na questão do primeiro uso como a base para a auto-propriedade? É claro que, no que tange a maioria das reivindicações de posse sobre um corpo de uma pessoa — um assaltante ou o estado tentando recrutar alguém, por exemplo —, apenas essa pessoa é de fato o "primeiro usuário", e, assim, ela tem uma melhor reivindicação sobre o seu corpo do que o intruso. Mas, e quanto aos pais de uma pessoa? Será que essa pessoa é de fato a primeira usuária do seu corpo? Estaria esse corpo simplesmente a esmo e sem dono, em seu estado natural, esperando que algum ocupante o apanhasse e se apropriasse dele?

Não, é claro que não. Essa pessoa estava sob os cuidados de — e foi produzida por — seus pais. Assim, se mantivermos que o "primeiro uso" sempre determina a resposta para a questão "quem é o dono deste recurso?", para absolutamente qualquer recurso, seria de se supor então que os pais de fato são os donos de seus filhos. A mãe é dona da matéria física e dos pedaços de comida e nutrição que se agregam formando um zigoto, depois embrião, depois feto e, finalmente, um bebê.

Portanto, quando a criança se torna dona de si mesma? Ou, será que ela de fato se torna? O libertário parece estar frente a um dilema.

Possíveis soluções para o dilema

Vários possíveis argumentos podem ser apresentados para se evitar o desconfortável espectro de crianças em servidão. Primeiro, pode-se dizer que a principal questão política na sociedade envolve terceiros que querem dominar e controlar outros. Pais que escravizam filhos não parece ser o perigo mais premente. Para esse típico caso de conflito, o princípio do primeiro uso é suficiente para provar a auto-propriedade de um corpo vis-à-vis as pretensões de terceiros sobre esse corpo. Ainda assim, isso deixa em aberto a possibilidade de pais serem donos de seus filhos.

Em segundo lugar, pode-se argumentar que, mesmo que os pais de fato sejam donos de seus filhos, na maioria dos casos pais decentes iriam emancipar os filhos em uma idade apropriada. Isso provavelmente é verdade, mas a possibilidade de pais brutais venderem seus filhos para serem escravos ainda está perturbadoramente não resolvida.

Terceiro, talvez poder-se-ia tentar algum tipo de "teorema da regressão" para essa questão — até chegarmos a Adão. Mas isso provavelmente não seria frutífero.

Quarto, não é difícil prever um cenário no qual a maioria das linhas de descendência, em algum ponto, foi permanentemente "liberada" ou "emancipada" pelas ações benevolentes de um ancestral importante. O tatataravô emancipou seu filho sob a condição de que este liberasse seus descendentes, e assim por diante. Dessa forma, todas ou quase todas as linhagens hereditárias se tornaram livres por causa de um distante ato no passado feito por um ancestral benevolente. Mas, ainda assim, está em aberto a possibilidade de que algumas não o foram; e, de qualquer forma, esse raciocínio admite que, em certos períodos do tempo, a escravidão infantil exista e seja permissível.

Finalmente, e para mim a mais decisiva: o libertário poderia argumentar que os pais têm várias obrigações positivas para com os filhos, tais como a obrigação de alimentar, dar abrigo, educar, etc. A idéia aqui é a de que o libertarianismo não se opõe a "direitos positivos" — desde que voluntariamente praticados. Uma maneira de fazer isso é através de um contrato; outra, é através da violação da propriedade alheia.

 Assim, se você estiver passando por um homem se afogando em um lago, você não tem a obrigação (legal) de tentar resgatá-lo; mas se você empurrar alguém em um lago, aí sim você tem a obrigação positiva de tentar resgatá-lo. Se não o fizer, responderá por homicídio. Do mesmo modo, se suas ações voluntárias derem vida a uma criança que tenha necessidades naturais de abrigo, comida, proteção e cuidados, essa situação será semelhante a jogar alguém num lago. Em ambos os casos, você cria uma situação em que um outro ser humano está em desesperadora necessidade de ajuda, sem a qual morrerá. Ao criar essa situação de necessidade, você passa a ser obrigado a saciar essas necessidades. E certamente esse conjunto de obrigações positivas incluiria a obrigação de emancipar a criança em um certo momento.

Esse último argumento é, para mim, o mais atraente, mas também é o que tem a menor probabilidade de ser aceito pela maioria dos libertários, que geralmente se opõem a obrigações positivas, mesmo que elas sejam o resultado das ações de uma pessoa. Rothbard, por exemplo, apresenta várias objeções a tal abordagem.

O Elo Objetivo: O verdadeiro critério

Apesar disso tudo, todos esses esforços herculanos são desnecessários. O dilema surgirá apenas se for assumido que o "primeiro uso" determina a propriedade não apenas de recursos originalmente apropriados (homestead), mas também a propriedade sobre corpos.

Entretanto, a regra do "primeiro uso" é meramente o resultado da aplicação do princípio mais geral do elo objetivo para o caso de objetos que podem ser originalmente apropriados de um estado em que se encontravam sem dono. Lembre-se que o propósito dos direitos de propriedade é evitar conflitos sobre recursos escassos (e concorrentes). Para cumprir esse propósito, títulos de propriedade sobre recursos particulares são atribuídos a proprietários particulares. Entretanto, essa atribuição não pode ser aleatória, arbitrária ou tendenciosa, se é que se queira de fato torná-la uma regra que evite conflitos. O que isso significa é que esses títulos têm de ser atribuídos a um dos reivindicantes concorrentes baseando-se na "existência de um elo objetivo, e intersubjetivamente apurável, entre o pretendente a proprietário" e o recurso reivindicado.

Assim, é o conceito de elo objetivo entre reivindicantes e o recurso reivindicado que determina a posse de uma propriedade. O primeiro uso é meramente o que constitui o elo objetivo no caso de recursos previamente sem dono. Nesse caso, o único elo objetivo para o objeto é aquele entre o primeiro usuário — o apropriador — e o objeto. Qualquer outro pretenso elo não é objetivo, e é baseado meramente em um decreto verbal, ou em algum tipo de formulação que viola a distinção entre a situação anterior e a posterior. Mas essa distinção entre o antes e o depois é crucial se quisermos que os direitos de propriedade de fato estabeleçam direitos e evitem conflitos. Ademais, reivindicações sobre propriedade não podem se basear em meros decretos verbais, pois isso não iria ajudar a reduzir conflitos, já que qualquer um poderia simplesmente decretar sua posse sobre o objeto.

Então, para objetos originalmente apropriados — recursos previamente sem dono —, o elo objetivo é o primeiro uso. Tem de ser assim pela natureza da situação.

Mas para corpos, as coisas não são as mesmas. Como observado acima, uma pessoa não é de fato a "primeira usuária" de seu corpo da mesma maneira que uma pessoa é a primeira usuária de um objeto previamente sem dono que se torna sua posse. Não é como se o corpo estivesse lá, a esmo e sem uso, solitário, esperando que um ocupante se apropriasse dele. E tem mais: como observado acima, o ocupante não é exatamente o primeiro usuário de seu corpo, em relação a seus pais.

Adicionalmente, apropriar-se originalmente de um recurso sem dono pressupõe que uma pessoa já tenha um corpo, o qual ela usa para agir no mundo e para se apropriar originalmente de objetos sem dono. Mas esse não é o caso quando se trata de "apropriar-se originalmente" de um corpo. Uma pessoa só vai ter um corpo quando já tiver ganhado direitos sobre ele.

Se o "primeiro uso" não é o teste supremo para o "elo objetivo" no caso da propriedade do corpo, então qual é? Resposta: trata-se da relação única entre uma pessoa e "seu" corpo — seu controle direto e imediato sobre o corpo, e o fato de que, pelo menos de uma maneira, um corpo representa uma dada pessoa e vice versa. É isso que faz o elo objetivo ser suficiente para dar àquela pessoa — e não a qualquer outro reivindicante — um melhor título de propriedade sobre seu corpo. Nem mesmo seus pais superariam esse pressuposto. (Uma exceção seria a vítima de um crime cometido pelo proprietário do corpo, que poderia por isso adquirir um elo "superior" ao, ou uma reivindicação sobre, o corpo do criminoso).

Ademais, qualquer estranho que reivindique a propriedade sobre o corpo de uma pessoa não pode negar esse elo objetivo e nem seu status especial, já que esse estranho necessariamente também pressupõe isso para ele próprio. Isso ocorre porque, ao tentar exercer domínio sobre essa outra pessoa, ao tentar afirmar posse sobre o corpo dela, esse estranho tem de pressupor que ele é dono do seu próprio corpo, o que demonstra que ele de fato reconhece uma certa importância nesse elo, ao mesmo tempo em que desconsidera a significância desse elo entre aquela pessoa e seu respectivo corpo. (Observe que se uma vítima busca exercer domínio sobre o corpo do seu agressor para propósitos de punição proporcional, sua alegação de propriedade sobre o corpo do agressor não é incompatível com uma alegação de auto-propriedade, já que os casos são diferentes. Não é inconsistente alegar que o elo especial entre uma pessoa inocente e seu corpo lhe dá a melhor reivindicação sobre esse corpo, e, ao mesmo tempo, também alegar que isso não é válido para um agressor porque este cometeu agressão. Essa distinção não é arbitrária e nem particularizável; ela está fundada na natureza mesma das coisas). 

A questão essencial da primazia do elo "direto" sobre um elo "indireto" (ceteris paribus — ver a questão acima sobre a punição de criminosos) foi sugerida a mim pela primeira vez por Hans-Hermann Hoppe. Como pode ser evidente para aqueles familiarizados com a ética da argumentação de Hoppe, a teoria hoppeana deduz a prioridade lógica do controle direto sobre o corpo de alguém versus o controle indireto. De fato, a argumentação feita acima (que qualquer estranho que reivindique a propriedade sobre o corpo de uma pessoa não pode negar o elo objetivo entre pessoa e corpo) é simplesmente uma aplicação da abordagem da ética da argumentação de Hoppe. Na realidade, Hoppe apresentou um argumento similar em uma publicação alemã de 1985:

"A resposta para a pergunta "O que torna o meu corpo 'meu'?" jaz no fato óbvio de que essa não é meramente uma declaração; essa é realmente a questão em cheque. Por que nós dizemos "este é o meu corpo"? Existem dois requisitos para essa questão. Por um lado, tem de ser verdadeiro o fato de que o corpo chamado de "meu" deve realmente (de uma maneira intersubjetivamente apurável) expressar ou "materializar" minhas vontades. 

A prova disso, no que diz respeito ao meu corpo, é fácil de demonstrar: quando eu anuncio que agora irei levantar meu braço, virar minha cabeça, relaxar na minha cadeira (ou qualquer outra coisa) e essas notificações se tornam verídicas (são executadas), então isso mostra que o corpo que faz essas ações foi de fato apropriado pela minha vontade. 

Se, ao contrário, meus anúncios não mostrarem nenhuma relação sistemática com o comportamento efetivo do meu corpo, então a sentença "esse corpo é meu" teria de ser considerada uma declaração vazia e objetivamente infundada; e, igualmente, essa sentença seria rejeitada como incorreta se, após o meu anúncio, não fosse o meu braço que se levantasse, mas, sim, o braço de Müller, ou o de Méier, ou o de Schulze (situação essa na qual uma pessoa estaria mais inclinada a considerar que o corpo de Müller, ou de Méier ou de Schulze é "meu"). 
Por outro lado, independentemente de ter demonstrado que minha vontade foi "materializada" no corpo chamado de "meu", há de ser demonstrado que a minha apropriação tem prioridade em relação à possível apropriação do mesmo corpo por uma outra pessoa.

No que diz respeito a corpos, isso também é fácil de comprovar. Demonstramos isso mostrando que o corpo está sob meu controle direto, ao passo que qualquer outra pessoa somente pode se materializar (expressar) em meu corpo indiretamente, isto é, por meio de seus próprios corpos; e um controle direto deve obviamente ter prioridade lógica e temporal (precedência) em relação a qualquer controle indireto. Essa última afirmação simplesmente se deriva do fato de que qualquer controle indireto de um bem por uma pessoa pressupõe o controle direto dessa pessoa sobre seu próprio corpo; assim, para que um bem escasso se torne corretamente apropriado, temos de pressupor que a apropriação e o controle direto do corpo dessa pessoa (o apropriador) foi feita de maneira justificável. Somente assim a apropriação desse bem será defensável. 


Sendo assim, segue-se que: se a justiça de uma apropriação por meio de controle direto deve ser uma pressuposição para quaisquer apropriações indiretas futuras, e se somente eu tenho controle direto sobre meu corpo, então ninguém além de mim pode jamais ser justificadamente dono do meu corpo (ou, colocado de maneira diferente, então a propriedade do meu corpo não pode ser transferida para outra pessoa), e qualquer tentativa de controle indireto sobre meu corpo por parte de outra pessoa deve, a menos que eu tenha explicitamente concordado, ser considerada injusta e injustificável."
Então, quem é o dono do corpo de uma criança? Inicialmente, os pais o são, como um tipo de tutor temporário. Os pais, como os produtores da criança, têm um elo objetivo ao corpo da criança, um elo que anula qualquer reivindicação por parte de estranhos (a menos que os pais rompam esse elo ao abusarem de sua posição). Ou seja: os pais têm mais direitos sobre a criança do que quaisquer estranhos, por causa de seu elo natural com a criança. Entretanto, quando a criança se "apropriar" de seu corpo, estabelecendo o necessário elo objetivo suficiente para estabelecer a auto-propriedade, a criança se torna um adulto, por assim dizer, e agora passa a ter uma melhor reivindicação sobre seu corpo em relação a seus pais.

Hoppe reconheceu essa conclusão em seu tratado de 1989, no qual ele escreveu:

É valioso mencionar que o direito de propriedade proveniente da produção encontra sua limitação natural somente quando, como no caso das crianças, a coisa produzida é ela mesma um outro agente-produtor. De acordo com a teoria natural da propriedade, uma criança, uma vez nascida, é tão dona de seu próprio corpo quanto qualquer outra pessoa. Então, não apenas a criança tem o direito de não ser fisicamente agredida, mas como dona de seu próprio corpo a criança tem o direito, em particular, de abandonar seus pais uma vez que esteja capaz de fugir deles e dizer "não" às suas possíveis tentativas de recapturá-la. Os pais apenas têm direitos especiais com relação à sua criança — proveniente de seu status único de produtores da criança — enquanto eles (e ninguém mais) puderem reivindicar o direito de serem os tutores da criança. E isso só acontece enquanto ela for fisicamente incapaz de fugir e dizer "não".

Aqui, Hoppe adota a abordagem rothbardiana, que usa a capacidade da criança de fugir e dizer "não" como uma espécie de regra prática para indicar quando uma criança já se apropriou completamente de seu corpo. Mas uma concepção mais geral de apropriação corpórea pode ser desenvolvida ao se considerar o seguinte: Primeiro, como Hoppe enfatiza, apropriar-se significa trazer sob o controle.

Hoppe também argumenta que direitos são dados a agentes racionais — aqueles que são "capazes de se comunicar, discutir, argumentar e em particular, [que são] capazes de participar em uma argumentação sobre problemas normativos".Isso sugere que uma pessoa atinge a maturidade, ou se "apropria" de seu corpo e ganha direitos irrestritos de propriedade sobre ele, quando ela atinge o ponto em que se torna um agente racional nesse sentido. (O ato de se ganhar em plenitude o direito de auto-propriedade pode ser considerado como um tipo de apropriação original do corpo de uma pessoa — atingindo a maturidade, por assim dizer — desde que se tenha em mente que esta é um tipo especial de apropriação: não se trata de uma apropriação feita pelo dono de um corpo sobre um recurso sem dono (não-agente), mas o estabelecimento de um elo objetivo constituído por um controle direto e imediato sobre o corpo por um agente racional).

Obviamente, há outras questões que podem ser exploradas aqui: quando e exatamente como uma criança se apropria de si própria, ou atinge a maioridade; e quais as exceções ao caso óbvio, como no caso em que uma pessoa comete um crime que de algum modo rompe seu elo objetivo ou o transfere para sua vítima (criando um elo "superior" em a favor da vítima), de modo que a vítima passa a ter o direito de retaliar. Mas já deve estar claro que o que distingue o libertarianismo de todas as teorias políticas concorrentes é a sua adesão escrupulosa — instruída por uma sólida teoria econômica, isto é, a economia austríaca — à idéia de que direitos de propriedade sobre recursos escassos devem ser dados à pessoa com o melhor elo objetivo ao recurso em questão; e que, no caso de corpos, o elo é a conexão natural — bem como a relação — entre o ocupante e o corpo, ao passo que para todos os outros recursos, o elo objetivo é o primeiro uso.


Stephan Kinsella
advogado especialista na área de patentes, é autor/editor de vários livros e artigos sobre leis de propriedade intelectual, direito internacional e outros tópicos jurídicos.
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Murray Rothbard um assumido conservador cultural

09:06:00
Por que a esquerda sempre faz uma oposição histérica a toda e qualquer ínfima medida ou iniciativa que seja por ela tida como "antiprogressista" ou, pior ainda, "reacionária" e contrária ao seu "projeto de poder"?
Seja no quesito dos "direitos" dos homossexuais ("direitos", no linguajar esquerdista, nada mais são do que deveres impingidos aos pagadores de impostos), nos privilégios raciais e sindicais, no feminismo, no desarmamento, no aborto financiado pelo estado, e até mesmo em tímidas propostas de reformas assistencialistas, a esquerda progressista sempre reage com um furor frenético contra qualquer pessoa — seja político, comentarista político ou apenas alguém da mídia alternativa — que se atreva a fazer algo que leve a um pequeno recuo destes sagrados esquemas socialistas.

O frenesi progressista que vem varrendo o mundo começou realmente no final dos anos 1930.  Naquela época, vivendo em Nova York, minha família, meus amigos e meus vizinhos, todos esquerdistas, haviam chegado ao paroxismo do medo e da raiva por causa da contra-revolução de Franco e da iminente derrocada do governo espanhol esquerdista durante a Guerra Civil Espanhola.  Superabundavam denúncias e vituperações lacrimosas contra Franco, além de contínuas exortações para que "alguma coisa fosse feita".  Houve a criação de organizações especializadas em enviar de tudo para a Espanha, desde leite até armas e soldados.  Era a "Brigada Internacional", criada para defender a esquerda espanhola (alcunhada de "Legalistas" pelo sempre simpatizante The New York Times e por outros veículos da mídia "respeitável").
Vale enfatizar que estas pessoas jamais — nem antes e nem durante — haviam demonstrado qualquer tipo de interesse pela história, cultura ou política espanhola.  Logo, por que repentinamente passaram a se preocupar com o país?  
O historiador esquerdista Allen Guttman chegou até a documentar e celebrar esta histeria em relação à Espanha em seu livro A Ferida no Coração (o título já diz tudo).  Certa vez perguntei ao meu amigo Frank S. Meyer, que havia sido um proeminente comunista americano, a respeito deste enigma.  Ele deu de ombros: "Nós [os comunistas] nunca conseguimos entender o porquê.  Mas tiramos proveito do sentimentalismo progressista da questão".
 explicação ortodoxa dos historiadores é que os esquerdistas da época — cujo quartel-general, a fonte de financiamento, estava nos EUA — estavam especialmente temerosos quanto à "ameaça do fascismo", e defendiam freneticamente a esquerda espanhola porque viam a Guerra Civil daquele país como um prenúncio de uma inevitável Segunda Guerra Mundial.  
Mas o problema com esta explicação é que, embora a esquerda progressista houvesse defendido entusiasmadamente a "boa" Guerra contra o Eixo, ela nunca realmente arregimentou a mesma emotividade, a mesma exaltação, o mesmo furor que demonstrava em relação a Franco contra Hitler, por exemplo.
Então, qual a verdadeira explicação para a atual postura da esquerda em relação a temas cultural e economicamente progressistas?
Creio que uma pista pode ser encontrada na mini-histeria que a esquerda demonstrou a respeito da contra-revolução ocorrida contra o regime esquerdista da Salvador Allende no Chile, uma contra-revolução que colocou o General Augusto Pinochet no poder.  A esquerda, até hoje, ainda não perdoou a direita chilena e a CIA por este golpe.  Allende ainda é considerado um mártir querido pela esquerda, e sua filha Isabel, um ícone (embora ainda percam para Che Guevara).  
Seria esta raiva tão duradoura só porque um regime comunista foi derrubado?  Quase, mas ainda longe.  Afinal, a esquerda não demonstrou grandes emoções, não demonstrou nenhum desespero, quando os regimes comunistas entraram em colapso na União Soviética e no Leste Europeu.. 
Logo, sugiro que 'A Resposta' para este mistério é a seguinte: a esquerda é, em sua essência, "progressista", o que significa que ela acredita, à moda marxista, que a história consiste em uma 'inevitável marcha ascendente' rumo à luz, rumo à utopia socialista.  
A esquerda progressista acredita no mito do progresso inevitável; ela acredita que a história está ao seu lado, sempre conspirando a seu favor.  Sendo ela formada por social-democratas (mencheviques), primos dos comunistas (bolcheviques) — com quem vivem entre tapas e beijos —, a esquerda progressista possui um objetivo similar ao dos comunistas, mas não idêntico: um estado socialista igualitário, gerido totalmente por burocratas, intelectuais, tecnocratas, "terapeutas" e pela Nova Classe iluminada, geralmente em colaboração com — e sempre sendo apoiada por — credenciados membros de todos os tipos de grupos vitimológicos, aquela gente que se diz perseguida e que vive lutando por "direitos iguais" — sendo que o 'iguais' significa na verdade 'superiores'.  Estes grupos são formados por negros, mulheres, gays, lésbicas, trans, índios etc. 
A esquerda progressista acredita que a história está marchando inexoravelmente rumo a este objetivo.  Uma parte vital deste objetivo é a destruição da família tradicional, "burguesa" e composta de pai e mãe, que deve ser substituída por um sistema em que as crianças são criadas e educadas pelo estado e por sua Nova Classe de orientadores, tutores, terapeutas e demais "cuidadores" infantis.

A utópica marcha da história, objetivo dos social-democratas, também é similar à dos comunistas, mas não exatamente a mesma.  Para os comunistas, o objetivo era a estatização dos meios de produção, a erradicação da classe capitalista, e a tomada de poder pelo proletariado.  Já os social-democratas entenderam ser muito melhor um arranjo em que o estado socialista mantém os capitalistas e uma truncada economia de mercado sob total controle, regulando, restringindo, controlando e submetendo todos os empreendedores às ordens do estado.  O objetivo social-democrata não é necessariamente a "guerra de classes", mas sim um tipo de "harmonia de classes", na qual os capitalistas e o mercado são forçados a trabalhar arduamente para o bem da "sociedade" e do parasítico aparato estatal.  Os comunistas queriam uma ditadura do partido único, com todos os dissidentes sendo enviados para os gulags.
Já os social-democratas preferem uma ditadura "branda" — aquilo que Herbert Marcuse e a Escola de Frankfurt, em outro contexto, rotularam de "tolerância repressiva" —, com um sistema bipartidário em que ambos os partidos concordam em relação a todas as questões fundamentais, discordando apenas polidamente acerca de detalhes triviais — "a carga tributária deve ser de 37% ou de 36,2%?".
Liberdade de expressão, de imprensa e de ideias é tolerada pelos social-democratas, mas desde que ela se mantenha dentro de um espectro de opiniões pré-aprovadas.  Os social-democratas repelem a brutalidade dos gulags; eles preferem fazer com que os dissidentes padeçam da "suave" e "terapêutica" ditadura do politicamente correto, na qual eles forçosamente têm de aprender as maravilhosas virtudes de ser educado na "dignidade de estilos de vida alternativos", sempre submetidos a um intenso "treinamento de sensibilidade".  Em outras palavras, Admirável Mundo Novo em vez de 1984.  A "marcha ascendente da democracia" em vez da "ditadura do proletariado".
Também típica é a distinção, nas duas utopias, acerca de como lidar com a religião.  Os comunistas, como fanáticos ateístas, tinham o objetivo de abolir por completo a religião.  Já os social-democratas preferem uma abordagem mais suave: subverter o cristianismo de modo a fazer com que a religião se torne aliada da social-democracia.  Daí a sagaz cooptação da esquerda cristã pelos social-democratas: enfatizando o modernismo entre os católicos e o evangelicalismo esquerdo-pietista entre os protestantes — este último objetivando criar um Reino de Deus na Terra na forma de uma coerciva e igualitária "comunidade de amor". 

Trata-se de uma estratégia muito mais astuta: cooptar religiosos em vez de assassinar padres e freiras e confiscar igrejas — esta última feita pelo regime republicano espanhol e por seus partidários trotskistas e anarquistas de esquerda, algo que não gerou absolutamente nenhum grito de protesto por parte de seus devotos defensores progressistas e social-democratas ao redor do mundo.
Esta distinção nos objetivos — totalitarismo brando vs. radical — também é refletida na acentuada diferença entre as estratégias e os meios utilizados.  Os comunistas, ao menos em sua clássica fase leninista, ansiavam por uma revolução violenta e apocalíptica que destruiria o estado capitalista e levaria à ditadura do proletariado.  Já os mencheviques — social-democratas ou neoconservadores —, fieis ao seu ideal "democrático", sempre se sentiram um tanto desconfortáveis com a ideia de revolução, preferindo muito mais a "evolução" gradual produzida pelas eleições democráticas.  
Para os mencheviques, o estado deve ser totalmente aparelhado por intelectuais partidários e simpatizantes, de modo a garantir a continuidade da longa marcha gramsciana da conquista das instituições culturais e sociais do país.  Daí a desconsideração pelos gulags e pela revolução armada.  Por isso o desaparecimento de seus primos (e concorrentes) bolcheviques não ter sido lamentado pelos social-democratas.  Muito pelo contrário: os social-democratas agora detêm o monopólio da marcha "progressista" da história rumo à Utopia.
O que me traz de volta à minha 'Resposta' sobre o porquê da histeria da esquerda progressista: ela se torna histérica sempre que percebe a ameaça de uma pequena reversão na Inevitável Marcha da História.  Ela se torna histérica quando visualiza alguns empecilhos e, principalmente, retrocessos nesta sua inexorável marcha ao poder total, retrocessos estes que sempre são rotulados, obviamente, de "reações".  Na visão de mundo tanto de comunistas quanto de social-democratas, a mais alta — desde que "progressista" — moralidade é se mostrar não apenas um defensor, mas também, e principalmente, um entusiasmado fomentador da 'inevitável próxima fase da história'.  É ser a "parteira" (na famosa expressão de Marx) desta fase.  
Da mesma forma, a mais profunda, se não a única, imoralidade é ser "reacionário", ser alguém dedicado a se opor a este inevitável progresso — ou, pior ainda, alguém dedicado a fazer retroceder a maré, a restaurar costumes enraizados, a "atrasar o relógio". 
Este é o pior pecado de todos, e ele gera todo este frenesi justamente porque qualquer retrocesso bem-sucedido colocaria em dúvida aquele que é o mais profundo e o mais inquestionavelmente aceito mito "religioso" da esquerda progressista: a ideia de que o progresso histórico rumo à sua Utopia é inevitável. 
Trata-se, no mais profundo sentido, de uma guerra não apenas cultural e econômica, mas religiosa.  "Religiosa" porque social-democracia/progressismo de esquerda é uma visão de mundo passional, uma "religião" no mais profundo sentido, pois guiada unicamente pela fé: trata-se da ideia de que o inevitável objetivo da história é um mundo perfeito, um mundo socialista igualitário, um Reino de Deus na Terra, seja este deus "panteizado" (sob Hegel e os adeptos do Romantismo) ou ateizado (sob Marx).   
Esta é uma visão de mundo em relação à qual não deve haver concessões ou clemência.  Ela deve ser contrariada e combatida veementemente, com cada fibra de nosso ser.
Quem vai vencer essa guerra?  Não se sabe.  De que lado está a maioria da população?  Certamente perdida, disponível para quem chegar primeiro.  A maioria está confusa, vagando de um lado para o outro, dividida entre visões de mundo conflitantes.  Ela pode pender para qualquer lado.  
Durante suas inúmeras batalhas faccionárias dentro do movimento marxista, Lênin certa vez escreveu que há dois grupos batalhando, cada um formado pela minoria da população, sendo que a maioria está no centro, e é formada justamente pelas pessoas confusas, às quais ele se referiu como O Brejo.  A maioria da população hoje está confusa e constitui O Brejo; estas pessoas estão no terreno no qual a maioria das batalhas será disputada.  E a metáfora é corretamente militar.  A batalha iminente é muito mais ampla e profunda do que apenas discutir alíquotas de impostos.  Trata-se de uma batalha de vida e morte pelo formato do nosso futuro.  Daí se compreende o frenesi que acomete a esquerda sempre que uma medida "reacionária" parece ser favorecida pela sociedade.
A esquerda progressista não se importa muito com — na verdade, ela até gosta de — pequenos revezamentos de poder: uma década de governos abertamente progressistas, nos quais a agenda esquerdista é avançada, seguida de alguns anos de governo "oposicionista" ou "conservador", no qual há apenas uma consolidação ou simplesmente uma redução na velocidade do avanço.  O que ela realmente teme é a perspectiva do conservadorismo se tornar reacionário, no sentido de realmente fazer retroceder alguns ganhos "progressistas".  É isso que a apavora.  
Daí a histeria em relação a Franco e a Pinochet; daí o linchamento de Joe McCarthy, que realmente ameaçou ser bem-sucedido em fazer recuar não apenas os comunistas, mas até mesmo os progressistas e social-democratas.  Ameace retroceder "direitos" obtidos por grupos de feministas, de gays, de negros, de desarmamentistas, de funcionários públicos, de sindicalistas ou de qualquer outro do ramo vitimológico, e você verá o que é uma fúria progressista.
Portanto, o combate requer, principalmente, coragem e nervos para não ceder e não se dobrar perante as totalmente previsíveis reações caluniosas e difamantes dos oponentes.  Acima de tudo, o objetivo não deve ser o de se tornar querido e bem aceito por progressistas ou pela Mídia Respeitável.  Tal postura irá gerar apenas mais rendição, mais derrotas.  Igualmente, o objetivo não é apenas o de fazer retroceder o estado leviatã, sua cultura niilista e estas pessoas que querem se apossar do estado e impor sua agenda sobre nós.  O objetivo tem de ser a eliminação completa e irreversível deste monstruoso sonho de um Perfeito Mundo Socializado gerido por "pessoas de bem".
Que a reação ocorra, que os "direitos" sejam retrocedidos, que esta gente recue, entre em órbita e finalmente perceba que, na realidade, sua religião é maléfica.
Murray N. Rothbard
(1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies. 

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Ancap Não Defende o Aborto

12:10:00
Não há nada de libertário em querer liberdade individual sem responsabilidade própria


A questão do aborto sempre dividiu amargamente populações de vários países.  É um triste espetáculo, principalmente quando consideramos que o fato de uma política social ficar a cargo do estado, principalmente em nível federal, já é uma violação das liberdades individuais de qualquer cidadão.  É igualmente triste perceber que um grande número de indivíduos acredita que sua liberdade depende exclusivamente de leis estatais, seja do Supremo Tribunal ou de qualquer outra instância pública.
Não há qualquer argumento que justifique haver um "direito ao aborto" patrocinado pelo governo.  A federalização da lei do aborto, permitindo-o ou proibindo-o, baseia-se unicamente nas idéias sociais e políticas criadas pelos tribunais estatais.
Portanto, o governo federal não tem qualquer autoridade para regular a questão do aborto.  Por que ao menos não deixar a cargo das legislaturas estaduais ou municipais decidirem sobre política social?  Certamente as pessoas em ambos os lados do debate sobre o aborto sabem que é muito mais fácil influenciar o governo em níveis estaduais e municipais.  
A federalização das questões sociais, originalmente propugnadas pela esquerda, mas hoje amplamente adotadas pela direita, simplesmente impede que os estados aprovem leis que reflitam mais de perto as visões de seus cidadãos.  Ao aceitarmos a federalização da lei do aborto — bem como de qualquer outra lei — perdemos a capacidade de aplicar os padrões da comunidade local às questões éticas.
Aqueles que defendem uma cultura pró-vida têm de aceitar que nunca conseguiremos convencer toda uma nação a concordar conosco.  Uma cultura pró-vida pode ser construída apenas de baixo para cima, começando em nível local e dali aumentando seu escopo de influência, de pessoa para pessoa.  Há muito temos encarado a batalha como sendo algo puramente político, mas nenhuma vitória política pode mudar uma sociedade já degradada.  Nenhuma decisão do Supremo Tribunal, contra ou a favor, pode instituir o respeito pela vida.  E nenhum juiz de um Supremo Tribunal pode salvar nossas liberdades se nós mesmos não estivermos dispostos a lutar por elas.
Uma postura libertária contra o aborto
Minha posição pró-vida foi fortalecida pela minha própria experiência como obstetra.  Creio sem qualquer sombra de dúvida que um feto é uma vida humana merecedora de proteção legal, e que o direito à vida é a base de qualquer sociedade moral.  A questão do aborto forjou minha crença de que a lei e a moralidade devem se cruzar para proteger os mais vulneráveis entre nós.  E se há alguma função para o estado, esta deveria ser a proteção dos direitos naturais dos indivíduos.
Mas será que ter essa postura anti-aborto é inerentemente inconsistente com a filosofia libertária?  Muitos libertários parecem acreditar que sim.  O aborto, de acordo com eles, é uma moralidade legislativamente forçada e defendida por conservadores pró-estado que querem impor sua fé e sua moral sobre o resto de uma sociedade avessa a isso.  E mais: eles dizem que essa postura é estatista e totalitária, pois invalida o direito da mãe em terminar sua gravidez.  Sendo assim, o estado estaria sobrepujando os direitos dos pais e decidindo pela mãe — contra sua vontade — que ela deve sim trazer uma criança ao mundo.
Mas seria isso mesmo? Sustento que não, em absoluto. Em vez de ser uma emancipadora manifestação da liberdade de escolha pessoal contra a intrusão governamental, o "direito" ao aborto é em si uma medida estatista totalmente consistente com a ideologia esquerdista que pretende ditar como a sociedade e o governo devem funcionar.  Essa postura em nada ajuda a promover a causa da liberdade. Ao contrário, ela faz com que os princípios da liberdade e da responsabilidade pessoal fiquem anos-luz atrasados.  A postura pró-vida é muito mais consistente com o ideal libertário do que a postura alternativa acima delineada.
Dado que muito material já foi escrito debatendo quando a vida de fato começa, seria tolice gastar tempo sobre o assunto neste espaço. Direi apenas que aqueles que argumentam que um feto em desenvolvimento não é de maneira alguma um ser humano têm muita evidência científica contra eles. Já está bem documentado que há um coração batendo após 18 dias de fertilização e que a formação de ondas cerebrais já ocorre após um mês e meio (tenha em mente também que a maioria dos abortos ocorre bem depois desses desenvolvimentos). 
Longe de ser apenas uma "bolha de carne" ou um acessório sem vida dentro de uma mulher, os defensores do aborto cada vez mais estão sendo confrontados com a inerente humanidade do feto em desenvolvimento. Tentar determinar um tempo preciso para o início da vida ignora várias evidências científicas que mostram justamente que todos os ingredientes necessários para isso já são apresentados logo no início da gravidez. 
A idéia comumente aceita para se decretar o status de vida é aquela que compara o feto a um humano completamente desenvolvido (ou, utilizando o argumento mais extremo dos pró-aborto, que a vida começa realmente apenas quando o bebê já saiu completamente do corpo da mãe durante o parto).  Isso é uma irresponsabilidade. Longe de ser apenas uma bolha de carne, ou uma simples forma de vida análoga a uma bactéria ou a uma fruta em crescimento, uma abordagem moral e filosófica mais responsável seria ver aquilo que está dentro do útero como sendo aquilo que realmente é: um ser humano em desenvolvimento.
Considerando-se tudo isso, a sanção estatal do aborto nada mais é do que uma troca de direitos. Lembre-se que, como foi dito, o aborto é defendido por alguns como um caminho para a liberação da mulher. O argumento é que nem o estado nem qualquer outro ser humano (especialmente os homens) têm o direito de dizer a uma mulher o que fazer com seu próprio corpo.  Parece correto, certo?  Nem tanto.
Tal postura convenientemente ignora o fato de que dentro da mãe jaz uma entidade que é completamente distinta dela. (O argumento de que o aborto é legítimo porque a criança depende da mãe para sua sobrevivência não precisa ser limitado ao útero; ele pode facilmente ser estendido a crianças recém-nascidas e até mesmo a incapacitados e idosos).  Portanto, está havendo uma troca de liberdades e direitos.  A mãe está ganhando direitos e privilégios especiais ao mesmo tempo em que a criança está perdendo seus direitos. Um lado está ganhando à custa do outro. Esse arranjo em nada difere das várias outras invenções esquerdistas e estatistas que prejudicam alguns para o benefício de outros.
É de se pensar como exatamente esse arranjo é libertário e pró-liberdade. Ao dar às mulheres o direito aprovado pelo estado de terminar uma gravidez está-se ignorando os direitos e interesses das outras partes envolvidas na questão. Primeiro, essa medida anula completamente o poder de decisão do homem na questão (ainda que reconhecidamente a maioria dos homens que engravidam essas mulheres nada mais são do que "doadores de esperma", por assim dizer, mas esse nem sempre é o caso). Segundo, há uma anulação completa da vida da criança em gestação, em meio a evidências cada vez mais conclusivas de que aquilo que está no útero é de fato uma vida.  Mas como esse bebê foi concebido em um momento inoportuno, azar o dele. Ele simplesmente não tem direitos.  Esse não parece ser um conceito muito libertário.
E quanto à liberdade pessoal e à responsabilidade?  Mais uma vez, percebe-se que aqueles que defendem o aborto em termos da liberdade pessoal estão vendo apenas um lado da história.  Eles não têm qualquer problema em negar o direito à vida e à liberdade da criança que está no útero — baseando-se, atenção, não em filosofia, ciências biológicas ou na razão moral, mas apenas em argumentos políticos e sociológicos.
Já é hora de os defensores da liberdade e da responsabilidade pessoal colocarem mais pressão sobre as pessoas promíscuas e sexualmente irresponsáveis para que elas tomem medidas adequadas para evitar a gravidez. Um feto não surge magicamente em um útero como uma acne brota na testa. Querer liberdade individual para se fazer o que quiser, mas sem ter de arcar com as consequências disso é libertinagem. Querer exterminar uma vida que surge em consequência de um ato impulsivo é a negação máxima da responsabilidade individual. É a irresponsabilidade hedonística levada ao paroxismo.
É moral e intelectualmente injusto fazer com que uma criança indesejada carregue o fardo pelas ações irresponsáveis de terceiros. Ao passo que os libertários diriam corretamente que não é função do estado tentar corrigir o comportamento e as atitudes equivocadas dos outros, também não faz sentido que o estado sancione leis agressivas e contra a vida que irão punir inocentes pelos erros de seus pais.  Isso não é nada libertário.  Trata-se de uma liberdade seletiva, que utiliza agressão contra crianças indefesas.
Isso nos leva à consideração final: o aborto viola o princípio da não-agressão.  A mãe (ou os pais), normalmente como resultado da própria irresponsabilidade, toma (tomam) a decisão unilateral de acabar com uma vida. A criança obviamente não tem voz nessa questão.  Os pais abortistas e o estado tomam a decisão pela criança, e prematuramente terminam sua vida, sem qualquer chance de defesa para ela. 
De novo, não é uma atitude muito libertária.
A questão política
Entretanto, esse embate não deve se dar no campo político.  Sabemos que a moralidade é algo que deve ser intrínseca às leis, não importa o que os secularistas digam.  Mas a moralidade não é intrínseca à política. A política nada mais é do que um mecanismo de se obter poder sobre as vidas das pessoas por meio do poder estatal. A política é a rejeição da santidade da vida. 
Assim, é um erro supor que uma cultura pró-vida possa ser implantada por meio da persuasão política ou do poder governamental. O respeito pela vida humana se origina de indivíduos agindo de acordo com sua consciência. A moralidade não é algo que pode ser imposto. Uma consciência pró-vida é estimulada pela religião, pela família e pela ética, não pelo governo.  A história já nos ensinou que os governos esmagadoramente violam a santidade da vida humana; eles nunca a defendem.
A idéia de que um estado todo-poderoso e centralizado deva fornecer soluções monolíticas para os nossos dilemas éticos é completamente descabida e equivocada. As decisões, como foi dito, devem ser tomadas descentralizadamente, em nível local ou, no máximo, estadual.  Entretanto, atualmente estamos sempre procurando uma solução federal para todo e qualquer problema social, ignorando os saudáveis limites que devem ser impostos a um governo central, solapando assim nossas liberdades.  O resultado é um estado centralizado que crescentemente vai tomando decisões ao estilo "tudo ou nada", alienando grandes segmentos da população.
Como libertário, defendo a causa pela vida não apenas em termos morais e espirituais, mas também filosoficamente, utilizando os princípios da não-agressão e da liberdade individual.  Um governo que sanciona o aborto sanciona a agressão (não à toa, o aborto foi a política de todos os países comunistas), dando direitos e privilégios a alguns (as mães) enquanto agride e tira os direitos de outros (as crianças não-nascidas).  Essa troca de direitos, bem como a agressão patrocinada pelo estado, não é algo libertário, como a maioria dos libertários convencionais presume.  Trata-se unicamente do modelo-padrão estatista que determina como a sociedade e o governo devem funcionar.  Tal postura é, em última análise, injusta, imoral e destrutiva.
Esse conceito tem muito mais em comum com a filosofia da esquerda intervencionista do que com a filosofia da liberdade.  E não há nada de libertário nisso.  
Ron Paul
é médico e ex-congressista republicano do Texas. Foi candidato à presidente dos Estados Unidos em 1988 pelo partido libertário e candidato à nomeação para as eleições presidenciais de 2008 e 2012 pelo partido republicano.
É autor de diversos livros sobre a Escola Austríaca de economia e a filosofia política libertária como Mises e a Escola Austríaca: uma visão pessoal, Definindo a liberdade, O Fim do Fed – por que acabar com o Banco Central (2009), The Case for Gold (1982), The Revolution: A Manifesto (2008), Pillars of Prosperity (2008) e A Foreign Policy of Freedom (2007).
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Proclamação de Anistia e Perdão

Proclamação de Anistia e Perdão Concedida a todos os indivíduos com ascendência europeia - Considerando que europeus mantiveram meus antepassados em cativeiro e trabalhando sem pagamento por três séculos, - Considerando que os europeus ignoraram as garantias de direitos humanos da Declaração de Independência e da Constituição dos Estados Unidos, - Considerando que a Proclamação de Emancipação, a Décima Terceira e Décima Quarta emendas significaram pouco mais que palavras vazias, Então os americanos com ascendência europeia são culpados por crimes contra meus ancestrais Mas, reconhecendo que os próprios europeus foram vítimas de variadas violações dos direitos humanos, tal como a Conquista Normanda da Inglaterra, a Grande Fome da Irlanda, o Declínio da Dinastia Habsburgo, as aventuras czaristas e napoleônicas, além de insultos gratuitos e especulações sobre a inteligência dos descendentes de poloneses, Eu, Walter W. Williams, declaro anistia e perdão gerais e irrestritos a pessoas de ascendência europeia tanto por suas queixas quanto pela escravidão que praticaram contra o meu povo. Portanto, de hoje em diante os americanos com ascendência europeia podem ficar tranquilos, cientes de que estão livres de qualquer culpa e desobrigados de agir como idiotas simpáticos quando se relacionam com americanos de ascendência africana. Walter W. Williams, generoso outorgante

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