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sábado, 15 de julho de 2017

Paleolibertarianismo


I: O libertário modal

Na edição de janeiro de 1990 da Liberty, Lew Rockwell publicou um artigo, “Em defesa do Paleolibertarianismo”, que causou alvoroço no meio libertário. Foi o artigo mais comentado e controverso da história dessa revista, e na verdade, também do movimento libertário em muitos anos.

O motivo é simples: o meio libertário está há anos mergulhado, na melhor das hipóteses, na indiferença, e na pior numa profunda decadência. Tem se caracterizado por uma carência de novas ideias, novas estratégias e formas de pensar. Na última década, as ideias libertárias se desenvolveram e se espalharam pelo mundo, mas com exceção da área específica da economia de livre mercado, as instituições libertárias vêm se deteriorando e se tornando totalmente irrelevantes para a cultura americana. Ao invés de enfrentar o desafio da decadência e deterioração crônicas, líderes do movimento se amontoaram sobre ele, desesperadamente intensificando seus esquemas de embustes e enganações, exatamente como sanguessugas acelerando seu vampirismo sobre o sangue de seu hospedeiro, conseguindo cada vez menos alimento.

O ano de 1989 – ano da gloriosa implosão revolucionária do comunismo/socialismo na Europa Oriental e na União Soviética – nos presenteou com um mundo totalmente novo, com novos parâmetros para ações. Todos os outros grupos ideológicos, conservadores, progressistas e esquerdistas, conseguiram, cada um de sua maneira, entender a necessidade de encarar a nova realidade repensando seus focos e estratégias. Apenas os libertários, como de costume, têm agido como se o mundo real não existisse, e continuaram a jogar negligentemente seus jogos de enganações. Em meio a este miasma generalizado, o artigo de Lew veio como uma chama de excitação, como trombetas anunciando que há grandes mudanças no mundo real, e já está na hora de acordarmos e colocarmos a cabeça pra funcionar sobre tudo que isto significa. Para todos os libertários com cérebros ainda funcionando, o artigo de Lew anunciou um novo alvorecer de atividade teleológica e pensamento criativo.

Infelizmente, tal é o estado alarmante que o movimento se afundou que praticamente nada desta excitação foi vista nos muitos comentários enfadonhos e incompreensíveis que se seguiram ao artigo na Liberty:  quase todos não eram nada além de respostas furiosas de  ursos sendo acordados de suas longas hibernações. Na verdade, a única crítica inteligente e fundamentada ao artigo de Rockwell não apareceu na Liberty, mas veio de Justin Raimondo na edição de março da Libertarian Republican Organizer.

Então por que paleo? Como um dos críticos de Lew disse, por que precisamos de mais uma palavra comprida anexada a primeira (libertarianismo)? O resumo da crítica padrão ao posicionamento paleo é que estamos nos preparando para “expulsar” todos os não-paleos (definido de forma variada como todos os não-burgueses e/ou não-religiosos) do movimento libertário. Isto é uma caracterização absurda de nossa posição e parece refletir uma grave incapacidade de leitura (ou de pensar).

Em primeiro lugar, com exceção do Partido Libertário, no movimento não existe nenhuma organização do tipo que aceita membros da qual poderíamos expulsar alguém. E quanto o PL, a maioria de nós saiu dele de corpo, e todos nós saímos de alma. E em segundo lugar, como pode uma pequena maioria (paleos) “expulsar” uma grande maioria?

Peneirando

Portanto, não focaram no ponto principal. O ponto do novo movimento paleo, incluindo a designação, é nos separar do movimento em geral, encontrar e inspirar outros paleos, e formar nosso próprio e separado movimento autoconsciente.

O que estamos dizendo, resumidamente, é que a liberdade é extraordinária e não queremos enfraquece-la ou dilui-la nem um pouquinho, mas que para nós, afinal, ela simplesmente não é o suficiente. Ainda somos libertários hard core, mas agora nós não estamos dispostos a nos contentar, com um movimento, somente pela liberdade. Nós lutamos por mais que liberdade.

Dissemos que uma certa matriz cultural é essencial para a liberdade. Posso entender porque esse tipo de ideia pode irritar libertários; por exemplo, o teórico político de Oxford John Gray tem, nos últimos anos, sinalizado sua deserção do liberalismo clássico (que já é uma forma diluída de libertarianismo) ao falar sobre a necessidade de uma certa cultura em complemento a liberdade: este tipo de conversa é quase sempre o prelúdio a uma reivindicação por poder estatal – e certamente o é no caso de Gray.

Mas este não é o ponto, embora eu concorde que a liberdade tende a florescer mais em uma cultura burguesa cristã. Eu estou disposto admitir que você pode ser um bom libertário hard core e ainda ser um hippie, um hostil a burguesia e ao cristianismo, um viciado em drogas, um vadio, um indivíduo rude e intolerável, ou mesmo um verdadeiro ladrão.

Porém, o ponto é que nós paleos não estamos mais dispostos a ter como colegas de movimento estes tipos de gente. Por duas razões distintas e poderosas, e cada uma delas sozinhas já seria razão suficiente para se formar um movimento paleo separado e distinto. Uma é estratégica: pois estes tipos de pessoas tendem, por razões óbvias, a enojar, e de fato repelir, a maioria das “pessoas reais”, pessoas que trabalham para ganhar a vida ou pagar as contas, pessoas da classe média ou trabalhadora que, na antiga e boa frase, buscam uma “vida digna”.

No Partido Libertário, a prevalência destes tipos de pessoas manteve a filiação e os votos baixos e ainda declinando. Mas também no movimento em geral, estes tipos luftmensch quase conseguiram transformar o glorioso termo “libertário” em um palavrão para a maioria dos ouvidos, sinônimo de maluco ou libertino. Neste estágio, a única maneira de salvar a gloriosa palavra e o conceito de “libertário” é afixar a palavra “paleo” a ela, e com isto tornar a distinção e a separação totalmente claras.

Mas nossas razões não são apenas estratégicas. Pois entre as pessoas repelidas estão nós mesmos, e apesar de obviamente possuirmos um nível de tolerância bem alto, ele foi enfim ultrapassado, e é com um sentimento jubiloso de alívio que limpamos os dejetos dos libertários padrões, ou “modais”, da sola de nossos sapatos.

Quando, no Libertarian Forum, eu costumava criticar os “eternos adolescentes” e os malucos – depois os apelidando de luftmenschen – eu era tratado ou como um adorável ou odiável excêntrico, mas o ponto é que estas posições culturais não eram consideradas nem um pouco relevantes para minha doutrina libertária. Elas são mais relevantes, ainda que em um plano diferente, do que a própria doutrina. Mas o ponto é que não pode mais ser aceitável negligenciar a parte “paleo” da equação.

Mas se nós somos os “paleos”, quem são os outros caras? Uma vez que os termos estejam em diferentes planos de linguagem, a simples palavra “libertário” não pode ser suficiente. Então eu apelidei os outros caras – nossos oponentes, por assim dizer – de “libertários nihilo” ou “nihilos”, com o restante dos libertários, talvez a maioria, confusos em algum ponto intermediário sem estar ainda a par destas distinções. Muitos deles são instintivamente paleos sem saberem disso.

Não há como saber os números exatos, mas após quase quarenta anos como um ativista no movimento libertário, tenho uma certeza: que os nihilos, sendo ou não uma maioria numérica, infelizmente são os libertários típicos ou “modais”. [A “moda” é um conceito em estatística que designa a classe ou categoria que possui a maior frequência de membros.]

Lew Rockwell e eu temos sido críticos ferrenhos do Partido Libertário, principalmente depois do debate na convenção nacional na Filadélfia em setembro do ano passado. Porém, enquanto o Partido Libertário é de fato irremediável e na verdade ainda não foi suficientemente denunciado pelo que ele se tornou, o partido não é o único problema. Pois o partido é simplesmente a instituição mais visível e mais organizada do movimento. A doença do partido é somente o reflexo visível da podridão subjacente do movimento como um todo.

É por isso que Lew e eu não estamos pedindo por um novo Partido Libertário ou que ele seja substituído imediatamente por uma nova instituição de massa do movimento. A ferida é muito mais profunda, e a solução deve ser muito mais radical, e infelizmente deve levar mais tempo do que alguma outra cura rápida. O primeiro passo é peneirar, e formar nossos próprios órgãos e instituições libertários, começando, claro, com o próprio RRR (Rothbard–Rockwell Report).

O retrato do Libertário Modal

É fácil começar nossa definição de “paleo” explicando o que nós não somos, e do que nós estamos determinados a nos afastar. E a maneira mais fácil de explicar isto é desenhar nosso retrato do Libertário Modal, sua natureza e suas atitudes.

E o Libertário Modal (daqui para frente LM) é, na verdade, um homem, pois o movimento sempre foi, logicamente, predominantemente masculino. E infelizmente, as poucas ativistas libertárias femininas padecem de muitos dos sintomas desta síndrome masculina.

O LM se encontrava na faixa dos seus vinte anos há vinte anos e, agora, encontra-se na faixa dos seus quarenta anos. Isso não é nem tão banal nem tão benigno como parece, pois significa que o movimento realmente não cresceu nos últimos vinte anos; as mesmas pessoas patéticas apenas envelheceram vinte anos. O LM é bastante promissor e bastante versado na teoria libertária. Mas ele não sabe nada e não se interessa pela história, pela cultura, pelo contexto da realidade ou pelos assuntos mundiais. A sua única leitura ou o seu único conhecimento cultural é a ficção científica, na qual o LM é um expert, e que faz com que ele se mantenha tranquilamente bem isolado da realidade. Consequentemente, o membro ativista médio do mais insignificante grupo trotskista sabe bem mais sobre temas mundiais do que grande parte dos líderes libertários.

O LM, infelizmente, não odeia o estado por vê-lo como o instrumento social exclusivo da agressão organizada contra a pessoa e a propriedade. Em vez disso, o LM um adolescente que se rebela contra todos ao seu redor: em primeiro lugar, contra os seus pais; em segundo lugar, contra a sua família; em terceiro lugar, contra os seus vizinhos; e, por fim, contra a própria sociedade. Ele se opõe especialmente às instituições da autoridade social e cultural: em particular, à burguesia da qual ele proveio, às normas e às convenções burguesas e às instituições da autoridade social (como as igrejas). Para o LM, então, o estado não é o único problema; ele é apenas a parte mais visível e mais detestável das várias instituições burguesas odiadas: vem daí o entusiasmo com que o LM aperta o botão do “questione a autoridade”.

E daí se origina também a fanática hostilidade do LM ao cristianismo. Eu costumava pensar que esse ateísmo militante era apenas em função do randianismo do qual a maioria dos libertários modernos surgiu há duas décadas. Mas o ateísmo não é a chave – pois aquele que anunciasse, em uma reunião libertária, que era uma bruxa ou um adorador do cristal de energia ou de alguma besteira da Nova Era seria tratado com grande tolerância e respeito. Somente os cristãos eram os alvos dos abusos; e, claramente, a razão dessa diferença de tratamento não tinha nada a ver com o ateísmo. Isso tinha tudo a ver com a rejeição (e o desprezo) da cultura burguesa americana; e todo tipo de causa cultural maluca seria promovido a fim de torcer o nariz da odiada burguesia.

Na verdade, a atração original do LM para o randianismo era parte integrante da sua revolta adolescente: que maneira de racionalizar e sistematizar a rejeição aos pais, familiares e vizinhos seria melhor do que aderir a um culto que denunciava a religião e que proclamava a superioridade absoluta de si mesmo (do ego) e dos seus cultuados líderes, em contraste com os robóticos “second-handers” que supostamente povoavam o mundo burguês? Um culto que, além disso, conclama os seus prosélitos a desprezar os pais, a família e os associados burgueses e a cultivar a suposta grandeza do próprio ego individual (convenientemente orientado, é claro, pela liderança randiana).

Existe um certo charme arrojado nos rebeldes adolescentes de vinte anos; no entanto, aos quarenta, as mesmas atitudes e mentalidade se tornam detestáveis. Os críticos de Lew Rockwell convenientemente assumem que o que ele e eu estamos atacando são o cabelo, o modo de vida e o jeito de vestir “hippie”, ou largado. Mas está é uma visão extremamente superficial. A única coisa boa sobre ser largado é que isto faz com que seja mais fácil de identificar os modais nihilos. Mas mesmo aqueles LMs que se pareçam com pessoas reais, que usem terno e gravata, na verdade não são pessoas reais. O ponto principal é a personalidade, as atitudes.

Resumindo: o LM, caso tenha uma ocupação no mundo real (como a contabilidade ou a advocacia), é, de um modo geral, um advogado sem casos e um contador sem trabalho. A profissão habitual do LM é a de programador de computador; o LM era um nerd da computação bem antes da invenção do computador pessoal. Os computadores, na realidade, atraem a inclinação científica e teórica do LM; mas eles atraem o seu nomadismo acentuado, a sua necessidade de não ter uma folha de pagamento regular ou uma moradia fixa. Além disso, é fácil se intitular “consultor de computação” quando o que você é na verdade é um desempregado.

O LM também possui o “olhar longínquo” dos fanáticos. Ele está apto a te agarrar pela lapela na primeira oportunidade e a discorrer extensamente sobre as suas próprias “grandes descobertas” contidas em seu poderoso manuscrito que está chorando para ser publicado – e ele diz que isso é uma conspiração do poder constituído. Ele é como todos os fanáticos, sem nenhum senso de humor; o ápice do engraçado para ele é ver alguém levando uma torta na cara.

Mas, acima de tudo, o LM é um vadio, um embusteiro e, muitas vezes, um verdadeiro escroque. A sua atitude básica em relação aos outros libertários é “a sua casa é a minha casa”. Quantos libertários em uma rara posição privilegiada de morar em um apartamento ou casa não tiveram o prazer de ouvir a campainha tocar, e de se depararem com um cara na porta dizendo; “Ei cara, eu sou um libertário”, esperando passar a noite, ou a semana, ou o que for? Quantos libertários tiveram que deixar estas pessoas ao relento? Em suma, articulem eles ou não essa “filosofia”, os LMs são comunistas libertários: alguém que possua propriedade automaticamente tem de “compartilhá-la” com os demais membros da sua “família” libertária ampliada.

Nós paleo libertários somos pessoas que finalmente estamos dizendo “Basta!”, “Chega!”, Aguentamos até agora e não vamos aguentar mais nada. Assim como vou apontar futuramente em outro artigo, os gloriosos acontecimentos de 1989 acabaram com a Guerra Fria e tornaram possível e viável uma aliança de “paleo-conservadores”, uma reconstrução da Velha Direita. Mas nosso crescente desgosto com nossos camaradas de movimento libertário é um fenômeno a parte, embora se encaixe perfeitamente com nosso novo movimento e nos tenha dado a palavra “paleo”.

Anos atrás, quando me lamentava a um velho amigo sobre os malucos no movimento libertário, ele me aconselhou: “Convenhamos. Em um movimento excêntrico você vai encontrar excentricidades.” Verdade, mas nossas ideias não são tão excêntricas assim. Ao passo que todos os movimentos são recipientes imperfeitos para suas ideias puras, a maravilhosa doutrina libertária não merecia isto de jeito nenhum. Uma vez meu velho amigo Ralph Raico, falando sobre alguma atrocidade do movimento, inspirando-se numa espetacular fala do filme O Poderoso Chefão, quando Lee Strasberg, interpretando uma versão de Meyer Lansky, estava dando um sermão do Velho Mundo a Corleone: “Quando Moe foi assassinado (pelos Corleones) eu disse alguma coisa? Fiz perguntas? Não, porque eu disse a mim mesmo: este é o negócio que escolhemos.”

Ralph parafraseou isto em “Este é o movimento que escolhemos.” Okay. Isto pode ter servido de consolo por alguns anos. Mas nós paleos já tivemos o bastante. Nós estamos nos autoexcluindo. Estamos nos removendo do movimento. Estamos formando um novo movimento nosso: paleo-libertarianismo.

Tradução de Fernando Chiocca

Sobre o Autor: Murray N. Rothbard
Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.

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